£a£i...mulher...poema...


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Sejam Benvindos(as)...

 

Pergunto a cada um destes novos ladrilhos, todos lindos, novos, em brilho, quem me fez sair dos trilhos, me encher de suspiros, abandonar aqueles mesmos caminhos todos de muitos espinhos, despir uns vazios, viver em cios, pensar em filhos, me esvair em águas e rios. Fizeste isto: ladrilhaste minha alma com aquelas pedrinhas de brilhante que eu desisti há tanto de acreditar que existiam.

Escrito por Ticcia

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Ontem

As fendas nas quais cultivavas meus sorrisos
eram ideogramas de leituras não feitas
por minhas inconciliáveis palavras,
margem de pus e suor em meu peito

Ainda

Do lado de lá circulavam manhãs
quando eu tardia pioneira do nada
abria a mochila de meus sentimentos
e via voar sem um mínimo de pressa
faíscas molestadas por minhas asas,
plumas seduzidas em alinhamento idôneo,
verão calvo de um sol desfeito

Mas

Nada tendo de nada que sei
e do que sei tendo nada,
apenas carreguei mãos abertas
a benzer teus olhos com loucura
meio a razão e a tentação

Agora

Dou-te sem medo do que não sei
minhas horas vividas, vindouras.
Faz tempo ... um dia eu serenei...
Hoje orvalho sendas...
Por zelo leva a faixa à vida.
Prossigas!

Eliane Alcântara

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O Beijo
( Cyrano de Bergerac, act.III, Sc.IX }

Um beijo, mas, enfim, que grande coisa é essa?
Jura que de mais perto é jurada, promessa
Mais clara, confissão que quer confirmação,
Ponto róseo no i da palavra paixão,

Segredo que se diz à boca em vez da orelha,
Instante do infinito em sussurro de abelha,

Com sabor de flor amável comunhão.
Modo de respirar um pouco o coração
E de provar um pouco, à flor dos lábios, a alma!

Edmond Rostand

Garça Perdida

Anoiteceu
no meu olhar de feiticeira,
de estrela do mar, de céu, de lua cheia,
de garça perdida na areia.
Anoiteceu no meu olhar,
perdi as penas, não posso voar,
deixei filhos e ninhos,
cuidados, carinhos, no mar...
Só sei voar dentro de mim
neste sonho de abraçar
o céu sem fim, o mar, a terra inteira!
E trago o mar dentro de mim,
com o céu vivo a sonhar e vou sonhar até ao fim,
até não mais acordar...
Então, voltarei a cruzar este céu e este mar,
voarei, voarei sem parar á volta da terra inteira!
Ninhos faria de lua cheia e depois,
dormiria na areia...

Dulce Pontes

 

ONTEM  A NOITE
 
Ontem — sozinhos — eu e tu, sentados,
Nos contemplamos quando a noite veio:
Queixosa e mansa a viração dos prados
Beijava o rosto e te afagava o seio,
Que palpitava como ao longe o mar...
E lá no céu esses rubis pregados
Brilhavam menos que teu vivo olhar!
 
Co´a mão nas minhas, no silêncio augusto,
Tu me falavas sem mentido susto,
E nunca a virgem que a paixão revela,
Passou-me em sonhos tão formosa assim!
Vendo essa noite pura, e a ti tão bela,
Eu disse aos astros: — dai o céu a ela!
Disse a teus olhos: — dai amor p´ra mim!

Victor Hugo - tradução de Casimiro de Abreu

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Abrigo

Abrigo-me de ti
de mim não sei
há dias em que fujo
e que me evado

há horas em que a raiva
não sequei
nem a inveja rasguei
ou a desfaço

Há dias em que nego
e outros onde nasço

há dias só de fogo
e outros tão rasgados

Aqueles onde habito com tantos
dias vagos

Maria Teresa Horta, in "Minha senhora de mim"


O Beijo
 

os teus lábios parados eram a noite, o abismo
e o silêncio das ondas paradas de encontro às
rochas, o teu rosto dentro das minha mãos.
os meus dedos sobre os teus lábios e a ternura,
como o horizonte, debaixo dos meus dedos.
os meus lábios a aproximarem-se dos teus lábios,
os teus olhos entreabertos, os teus olhos e os
teus lábios a aproximarem-se dos meus lábios
a aproximarem-se dos teus lábios a aproximarem-se
dos meus lábios, teus lábios.

José Luís Peixoto

Ritual do silêncio
 

É do ocaso que te quero falar:
-Da angústia que se esvai;
Com ela o sol.
Da hora em que o silêncio ainda é tão leve
que nem sequer a brisa o trai.

Verás o tempo estagnar
no intangível esbater da cor.
Os cinzas e os cobres em que repousam
os verdes e os azuis.

Quero falar-te do desassossego dos pássaros,
prenúncio da calma de mais uma noite,
e, da paz intensa, mas tão breve,
que gostava de partilhar contigo,
meu amor.

Manuel Filipe, in Poemas de Manuel Filipe



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AS AMORAS

O meu país sabe às amoras bravas no verão.
Ninguém ignora que não é grande,nem inteligente,
nem elegante o meu país,
mas tem esta voz doce de quem acorda cedo para cantar nas silvas.
Raramente falei do meu país, talvez nem goste dele,
mas quando um amigo me traz amoras bravas
os seus muros parecem-me brancos, reparo que também no meu país o céu é azul.

Eugénio de Andrade

Amor, quantos caminhos...

"Amor, quantos caminhos até chegar a um beijo,
que solidão errante até tua companhia!
Seguem os trens sozinhos rodando com a chuva.
Em taltal não amanhece ainda a primavera.
Mas tu e eu, amor meu, estamos juntos,
juntos desde a roupa às raízes,
juntos de outono, de água, de quadris,
até ser só tu, só eu juntos.
Pensar que custou tantas pedras que leva o rio,
a desembocadura da água de Boroa,
pensar que separados por trens e nações
tu e eu tínhamos que simplesmente amar-nos
com todos confundidos, com homens e mulheres,
com a terra que implanta e educa cravos.”

Amor, quantos caminhos...

Pablo Neruda

Colhendo amoras

Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras,
amoras dos dois lados, embora mais à direita,
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um
mar
algures, lá ao longe, arfando. Amoras
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como
olhos
negros nas sebes, repletas
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus
dedos.
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me.
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus
lados.
Sobre mim passam, com a sua cacofonia, os corvos em
bandos negros,
pedaços de papel queimado oscilando num céu ventoso.
A sua voz é a única que está a protestar, a protestar.
Julgo que o mar não vai mesmo aparecer.
Os verdes e altos prados brilham como iluminados por
dentro.
Chego a um arbusto de bagas tão maduras: é um arbusto
de moscas,
suspendendo os seus abdómens azuis esverdeados e os
vidrilhos alados de um biombo chinês.
O festim de mel das bagas surpreendeu-as; julgam-se no
paraíso.Para além de uma curva, as bagas e os arbustos acabam.
A única coisa que vem a seguir é o mar.
De entre duas colinas sopra contra mim um vento súbito,
sacudindo como fantasmas a sua roupa branca contra o
meu rosto.
Estas colinas são demasiado verdes e suaves para terem
saboreado o sal.
Sigo, entre elas, a vereda aberta pelas ovelhas. Uma última
curva leva-me
até à face norte das colinas, e a face é urna rocha alaranjada
que olha para nada, nada a não ser uma grande extensão
de luzes brancas e cor de estanho e um ruído como o de
um ourives
batendo sempre um metal rebelde.

Sylvia Plath

bjus a todos(as)....



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"Esses dias cinzas não os passaremos em branco, mas em vermelho, amarelo, laranja, verde, nas tardes choveremos lilás."
(Chandal Nasser)

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,
Ou metade desse intervalo, porque também há vida...
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos
no corredor.
Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


<Começo a conhecer-me. Não existo,
Álvaro de Campos>

Cada Lugar teu

Sei de cor cada lugar teu
atado em mim, a cada lugar meu
tento entender o rumo que a vida nos faz tomar
guardar só o que é bom de guardar..

Pensa em mim protege o que eu te dou
Eu penso em ti e dou-te o que de melhor eu sou
sem ter defesas que me façam falhar
nesse lugar mais dentro
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

Fica em mim que hoje o tempo dói
como se arrancassem tudo o que já foi
e até o que virá e até o que eu sonhei
diz-me que vais guardar e abraçar
tudo o que eu te dei...

Mesmo que a vida mude os nossos sentidos
e o mundo nos leve pra longe de nós
e que um dia o tempo pareça perdido
e tudo se desfaça num gesto só...

Eu vou guardar cada lugar teu
ancorado em cada lugar meu
e hoje apenas isso me faz acreditar
que eu vou chegar contigo
onde só chega quem não tem medo de naufragar...

 Mafalda Veiga 



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