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Cristiny On Line
Reflexão Total
António Gedeão
Recolhi as tuas lágrimas
na palma da minha mão,
e mal que se evaporaram
todas as aves cantaram
e em bandos esvoaçaram
em tomo da minha mão.
Em jogos de luz e cor
tuas lágrimas deixaram
os cristais do teu amor,
faces talhadas em dor
na palma da minha mão.
Recordação
Cecília Meireles
Agora, o cheiro áspero das flores
leva-me os olhos por dentro de suas pétalas.
Eram assim teus cabelos;
tuas pestanas eram assim, finas e curvas.
As pedras limosas, por onde a tarde ia aderindo,
tinham a mesma exaltação de água secreta,
de talos molhados, de pólen,
de sepulcro e de ressurreição.
E as borboletas sem voz
dançavam assim veludosamente.
Restitui-te na minha memória, por dentro das flores!
Deixa virem teus olhos, como besouros de ónix,
tua boca de malmequer orvalhado,
e aquelas tuas mãos dos inconsoláveis mistérios,
com suas estrelas e cruzes,
e muitas coisas tão estranhamente escritas
nas suas nervuras nítidas de folha,
- e incompreensíveis, incompreensíveis.
Amor, pois que é a palavra essencial
Carlos Drummond de Andrade
Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da prórpia vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
Guardo una tarde de sol por si hace falta,
ese es un tesoro que nadie podrá arrebatarme.
Guardo la mirada risueña de alguna muchacha.
Guardo en un bolsillo el color de la piel de una naranja...
Te guardo una tarde de sol por si la quieres.
Ese es un tesoro que nadie podrá arrebatarte.
Te guardo una mirada risueña que nada pretende.
Te guardo en un bolsillo el calor de mi piel por si vinieses...* Manolo García *
![]()
Quando é que será quando...
Quando é que o cativeiro
Acabará em mim?
E, próprio dianteiro,
Avançarei enfim?
Quando é que me desato
Dos laços que me dei?
Quando serei um facto?
Quando é que me serei?
Quando ao virar da esquina
De qualquer dia meu,
Me acharei alma digna
Da alma que Deus me deu?
Quando é que será quando?
Não sei. E até então
Viverei perguntando:
Perguntarei em vão.Fernando Pessoa
![]()
Reflexões sobre as mulheres
Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.
Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.Eugénio de Andrade

Caixinha de música
Ana Mafalda Leite
impregno-me em ti como um perfume
como quem veste a pele de odores ou a alma de
cetins
quero que me enlaces ou me enfaixes de muitos
laços
abraços fitas ou fios transparentes
em celofane brilhando uma prenda
uma menina te traz vestida de lumes
incandescendo incandescente
te quer embrulhada em véus de seda e brocado
encantada a serpente a flauta o mago
senhor toca
e quando me toca
o corpo eu abro
caixinha de música
dentro
com bailarina que dança
___

Iluminado
Anna Maria Feitosa
Ando em busca
do ponto de equilíbrio
entre o aqui
e o agora
Perco os limites
do tempo
sigo lenta.
Pensando como quem dorme
falando
como quem sonha
amando
como quem pode.
Vejo a vida
de olhos claros
translúcidos
coloridos
como vinho
iluminado.
___

Esperança
Carmelina Albuquerque
O mar era verde
Quando a ele me atirei
Por isso julguei
A esperança ali estar
A me acenar
Enembarquei,
(no PedroII)
deixando ono porto
meu povo a chorar
e dentro do peito
minh'alma gemia
e o meu coração
estava a sangrar.
Parece um peixinho
o barco no oceano
a navegar
tão pequenino
numa bacia de anil
a flutuar
levando mil vidas
em busca de um porto
onde a felicidade
talvez possa estar.
Assim são os destinos
de todas as almas
que vivem a vagar
na Terra,
no espaço
ou no Mar
(... e porque um dia, também, com minha mãe me lancei ao mar)
(Poema de autoria da mãe da poetisa Anna Feitosa incluído no livro, Viagem Viragem Coragem, numa homenagem da poeta à sua mãe.)
clica na figura abaixo
...é lindinho tb....
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