Cada momento passado juntos Era uma celebração, uma Epifania, Nós os dois sozinhos no mundo. Tu, tão audaz, mais leve que uma asa, Descias numa vertigem a escada A dois e dois, arrastando-me Através de húmidos lilases, aos teus domínios Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite concedias-me o favor, Abriam-se as portas do altar E a nossa nudez iluminava o escuro À medida que genuflectia. E ao acordar Eu diria "Abençoada sejas!" Sabendo como pretensiosa era a benção: Dormias, os lilases tombavam da mesa Para tocar-te as pálpebras num universo de azul, E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes por dentro do cristal, A montanha assomando na bruma, mar enfurecido, Sentada num trono enquanto dormes, ...Deus do céu! ...tu pertences-me. Acordas para transfigurar As palavras de todos os dias, E o teu discorrer transbordante De poder revela na palavra "tu" O seu novo sentido: sigifica "rei". Simples objectos transfigurados, Tudo ...a bacia, o jarro ..., tudo Uma vez de sentinela entre nós Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos, sem saber para onde, Perseguidos por miragens de cidades Derrotadas construídas no milagre, Hortelã pimenta aos nossos pés, As aves acompanhando-nos o voo, E no rio os peixes à procura da nascente; O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro Como um louco com uma navalha na mão.
Арсений Александрович Тарковский Arseny Alexandrovich Tarkovsky
"Foi para ti que desfolhei a chuva para ti soltei o perfume da terra toquei no nada e para ti foi tudo Para ti criei todas as palavras e todas me faltaram no minuto em que talhei o sabor do sempre Para ti dei voz às minhas mãos abri os gomos do tempo assaltei o mundo e pensei que tudo estava em nós nesse doce engano de tudo sermos donos sem nada termos simplesmente porque era de noite e não dormíamos eu descia em teu peito para me procurar e antes que a escuridão nos cingisse a cintura ficávamos nos olhos vivendo de um só amando de uma só vida"
Confidência
Mia Couto
Diz o meu nome pronuncia-o como se as sílabas te queimassem os lábios sopra-o com a suavidade de uma confidência para que o escuro apeteça para que se desatem os teus cabelos para que aconteça
Porque eu cresço para ti sou eu dentro de ti que bebe a última gota e te conduzo a um lugar sem tempo nem contorno
Porque apenas para os teus olhos sou gesto e cor e dentro de ti me recolho ferido exausto dos combates em que a mim próprio me venci
Porque a minha mão infatigável procura o interior e o avesso da aparência porque o tempo em que vivo morre de ser ontem e é urgente inventar outra maneira de navegar outro rumo outro pulsar para dar esperança aos portos que aguardam pensativos
No húmido centro da noite diz o meu nome como se eu te fosse estranho como se fosse intruso para que eu mesmo me desconheça e me sobressalte quando suavemente pronunciares o meu nome.
Na minha procura de rumos Eu nada sei, e tudo sei Por isso, vivo dias azuis a cada momento... Coração cheio da mais pura verdade Crente no amor E tendo o mar como testemunha Descobri o verdadeiro amor!
Na espera do chegar No instante de uma espera Entre mares e ares Naveguei num mar inventado por mim Um lugar onde moram os sonhos Onde, pacientemente preparei a alma Para acolher o amor
Num sentir infinito, percorrendo a emoção Eis que surge, na espuma do mar Misturada a beleza da maresia Linda! Em um marear de amor, a mulher feliz! Em puro sal, num só gemer... O começo das minhas “horas azuis”
Te beijo, minha Terra Te amo e preciso Teu Mar
***
Meu Mar
deixo beijo para você nesse dia lindo de amor... dia dos namorados...dia nosso...
Tua Terra
Mar
Que mar é este onde navego e te amo Que, sem foz, me cobre os olhos e os recantos da alma? Não tem nuvens, nem sombras nem areia grossa Mas apenas ondas imensas e vontades intensas De verde me visto, vagueio e suspiro E por entre o meu corpo e o teu em plena apneia Me mantenho suspensa nos fios das estrelas Que de prata pintam a magia do mar. Aqui, nas ondas deste canal repleto de sal Tudo se renova e rejuvenesce em cada beijo Todas as palavras são ternas e quentes Todos os fluídos nos saciam a sede Até que o mar acalma, adormece e repousa Despertando apenas quando os primeiros raios de sol Brotam e revoltam o desejo insaciável De nos encontrarmos na profundidade deste amar
Há muito tempo, Vida, prometeste trazer ao meu caminho uma doida alegria feita de espírito e de chama, uma alegria transbordante, assim como esse alvo clarão que se irradia da orla festiva das enseadas, e entre reflexos de ouro se derrama do cântaro das madrugadas.
Eu, que nasci para um destino manso de coisas suaves, silenciosas, imprecisas, e que fico tão bem neste obscuro remanso onde apenas se infiltra um perfume de brisas, imagino a tremer: que seria de mim se essa alegria esplêndida, algum dia, houvesse surpreendido a minha inexperiência!…
A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.
Minha alegria deveria ser assim: Pequenina doçura delicada, gota de orvalho em pétala de flor, sempre serena lâmpada velada que me diluísse as brumas do interior.
Sempre serena lâmpada velada, símbolo do meu sonho predileto… Se amanhã tu penderes do meu teto aureolando minha última ilusão, - para que eu viva em teu amor e em tua paz, deixa um rastro de sombra pelo chão… É nesta sombra que hei de me esconder quando sentir a falta que me faz a outra alegria que não pude ter!
À noite como deve sentir-se solitário o vento Quando todos apagam a luz E quem possui um abrigo Fecha a janela e vai dormir.
Ao meio-dia, como deve sentir-se imponente o vento Ao pisar em incorpórea música, Corrigindo erros do firmamento E limpando a cena.
Pela manhã, como deve sentir-se poderoso o vento Ao deter-se em mil auroras, Desposando cada uma, rejeitando todas E voando para seu esguio templo, depois.
Coração bate inquieto Numa toada de vento Numa sonata muda Num compasso... Um querer
Nasce no peito As águas... ...que correm rumo a terra Numa melodia incontida Na canção de embalar ...um sussurro Nota em refrão ...som que faz sentir o mais puro vibrar
A canção, em emoção Com a palavra...Amor!
a canção de amor o barulho do mar o vibrar da terra
"...para ti eu criarei um dia puro...livre como o vento e repetido como o florir das ondas ordenadas. "
Sophia de M.B. Andrensen
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Tu já tinhas um nome, e eu não sei se eras fonte ou brisa ou mar ou flor. Nos meus versos chamar-te-ei. Amor...
Eugénio de Andrade
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Terra e Mar Músicas
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Pergunto a cada um destes novos ladrilhos, todos lindos, novos, em brilho, quem me fez sair dos trilhos, me encher de suspiros, abandonar aqueles mesmos caminhos todos de muitos espinhos, despir uns vazios, viver em cios, pensar em filhos, me esvair em águas e rios. Fizeste isto: ladrilhaste minha alma com aquelas pedrinhas de brilhante que eu desisti há tanto de acreditar que existiam.
Ticcia
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Serenamente
Aqui serenamente sou feliz sem qualquer memória do passado
sem qualquer cansaço mascarado ou trevas que encubram qualquer escombro
de ti tudo o que vem é quente e súbito
da tua voz amor do nosso encontro único
Maria Teresa Horta
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Soneto da Fidelidade
De tudo ao meu amor serei atento Antes e com tal zelo e sempre e tanto Que mesmo em face do maior encanto Dele se encante mais meu pensamento
Quero vive-lo em cada vão momento E em seu louvor hei de espalhar meu canto E rir meu riso e derramar meu pranto Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure Quem sabe a morte, angústia de quem vive Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa lhe dizer do amor que tive Que não seja imortal, posto que é chama Mas, que seja infinito enquanto dure.
Vinícius de Moraes
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Amor
Quem diz que Amor é falso ou enganoso, Ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso.
Amor é brando, é doce e é piedoso. Quem o contrário diz não seja crido; Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens, e inda aos deuses, odioso.
Se males faz Amor, em mi se vêem; Em mi mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia.
Mas todas suas iras são de Amor; Todos estes seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria.
Camões
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Não aprendi a colher a flor sem esfacelar as pétalas. Falta-me o dedo menino de quem costura desfiladeiros.
Criança, eu sabia suspender o tempo, soterrar abismos e nomear as estrelas. Cresci, perdi pontes, esqueci sortilégios.
Careço da habilidade da onda, hei-de aprender a carícia da brisa.
Trémula, a haste me pede o adiar da noite.
Em véspera da dádiva, a faca me recorda, no gume do beijo, a aresta do adeus.
Não, não aprenderei nunca a decepar flores.
Quem sabe, um dia, eu, em mim, colha um jardim?
Mia Couto
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A noite desce...
Como pálpebras roxas que tombassem Sobre uns olhos cansados, carinhosas, A noite desce... Ah! doces mãos piedosas Que os meus olhos tristíssimos fechassem!
Assim mãos de bondade me beijassem! Assim me adormecessem! Caridosas Em braçados de lírios, de mimosas, No crepúsculo que desce me enterrassem!
A noite em sombra e fumo se desfaz... Perfume de baunilha ou de lilás, A noite põe embriagada, louca!
E a noite vai descendo, sempre calma... Meu doce Amor tu beijas a minh'alma Beijando nesta hora a minha boca!
Florbela Espanca
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O jardim e a noite
Atravessei o jardim solitário e sem lua, Correndo ao vento pelos caminhos fora, Para tentar como outrora Unir a minha alma à tua, Ó grande noite solitária e sonhadora.
Entre os canteiro cercados de buxo, Sorri à sombra tremendo de medo. De joelhos na terra abri o repuxo, E os meus gestos foram gestos de bruxedo. Foram os gestos dessa encantação, Que devia acordar do seu inquieto sono A terra negra dos canteiros E os meus sonhos sepultados Vivos e inteiros.
Mas sob o peso dos narcisos floridos Calou-se a terra, E sob o peso dos frutos ressequidos Do presente, calaram-se os meus sonhos perdidos.
Entre os canteiros cercados de buxo, Enquanto subia e caía a água do repuxo, Murmurei as palavras em que outrora Para mim sempre existia O gesto dum impulso.
Palavras que eu despi da sua literatura, Para lhes dar a sua forma primitiva e pura, De fórmulas de magia.
Docemente a sonhar entre a folhagem A noite solitária e pura Continuou distante e intangível Sem me deixar penetrar no seu segredo. E eu senti quebrar-se, cair desfeita, A minha ânsia carregada de impossível, Contra a sua harmonia perfeita.
Tomei nas minhas mãos a sombra escura E embalei o silêncio nos meus ombros. Tudo em minha volta estava vivo Mas nada pôde acordar dos seus escombros O meu grande êxtase perdido.
Só o vento passou pesado e quente E à sua volta todo o jardim cantou E a água do tanque tremendo Se maravilhou Em círculos, longamente.
Sophia de M.B. Andresen
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A Terra
Também eu quero abrir-te e semear Um grão de poesia no teu seio! Anda tudo a lavrar, Tudo a enterrar centeio, E são horas de eu pôr a germinar A semente dos versos que granjeio.
Na seara madura de amanhã Sem fronteiras nem dono, Há de existir a praga da milhã, A volúpia do sono Da papoula vermelha e temporã, E o alegre abandono De uma cigarra vã.
Mas das asas que agite, O poema que cante Será graça e limite Do pendão que levante A fé que a tua força ressuscite!
Casou-nos Deus, o mito! E cada imagem que me vem É um gomo teu, ou um grito Que eu apenas repito Na melodia que o poema tem.
Terra, minha aliada Na criação! Seja fecunda a vessada, Seja à tona do chão, Nada fecundas, nada, Que eu não fermente também de inspiração!
E por isso te rasgo de magia E te lanço nos braços a colheita Que hás de parir depois... Poesia desfeita, Fruto maduro de nós dois.
Terra, minha mulher! Um amor é o aceno, Outro a quentura que se quer Dentro dum corpo nu, moreno!
A charrua das leivas não concebe Uma bolota que não dê carvalhos; A minha, planta orvalhos... Água que a manhã bebe No pudor dos atalhos.
Terra, minha canção! Ode de pólo a pólo erguida Pela beleza que não sabe a pão Mas ao gosto da vida!
Miguel Torga
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Ao Mar
Água, sal e vontade – a vida! Azul – a cor do céu e da inocência. Um lenço a colorir a despedida Da galera da ausência…
Mar tenebroso! Mar fechado e rugoso Sobre um casto jardim adormecido! Mar de medusas que ninguém semeia, Criadas com mistério e com areia, Perfeitas de beleza e de sentido!
Vem a sede da terra e não se acalma! Vem a força do mundo e não te doma! Impenitente e funda, a tua alma Guarda-se no cristal duma redoma. Guarda-se purificada em leve espuma, Renda da sua túnica de linho. Guarda-se aberta em sol, sagrada em bruma, Sem amor, sem ternura e sem caminho.
O navio do sonho foi ao fundo, E o capitão, despido, jaz ao leme, Branco nos ossos descarnados; Uma alga no peito, a flor do mundo, Uma fibra de amor que vive e treme De ouvir segredos vãos, petrificados.
Uma ilusão enfuna e enxuga a vela, Uma desilusão a rasga e molha; Morta a magia que pintava a tela, O mesmo olhar de há pouco já não olha.
Na órbita vazia um cego ouriço Pica o silêncio leve que perpassa… Pica o novo feitiço Que nasce do final de uma desgraça.
Mas nem corais, nem polvos, nem quimeras Sobem à tona das marés… O navio encalhado e as suas eras Lá permanecem a milhentos pés.
Soterrados em verde, negro e vago, Nenhum sol os aquece. Habitantes do lago Do esquecimento, só a sombra os tece…
Ela que és tu, anónimo oceano, Coração ciumento e namorado! Ela que és tu, arfar viril e plano, Largo como um abraço descuidado!
Tu, mar fechado, aberto e descoberto Com bússolas e gritos de gajeiro! Tu, mar salgado, lírico, coberto De lágrimas, iodo e nevoeiro!
Miguel Torga
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Rosa
Rosa em verso, rosa em prosa: rosa rosa. Verdadeira, recortada, sempre votiva é a rosa. Quem a dá, quem a ostenta, quem a colhe, quem a inventa, quem dela - a rosa - se lembra faz o voto de quebrar a pessoal solidão. Se não troco o pão por rosas, não troco a rosa por pão.
Alexandre Oneill
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Amar e ser amado
Amar e ser amado! Com que anelo Com quanto ardor este adorado sonho Acalentei em meu delírio ardente Por essas doces noites de desveio!
Ser amado por ti, o teu alento A bafejar-me a abrasadora frente! E, teus olhos mirar meu pensamento, P'ra tão puro e celeste sentimento:
Ver nossas vidas quais dois mansos rios, Juntos, juntos perderem-se no oceano Beijar teus dedos em delírio insano
Nossas almas unidas, nosso alento, Confundindo também, amante - amado - Como um anjo feliz... que pensamento
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer. Então sabemos tudo do que foi e será. O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se as palavras que a significam. Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos. Com doçura. Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites. Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela. Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz. Cada um de nós é por enquanto a vida. Isso nos baste.
Saramago
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Lira romantiquinha
Por que me trancas o rosto e o sorriso e assim me arrancas do paraíso?
Por que não queres deixando o alarme ( ai, Deus: mulheres) acarinhar-me?
Por que cultivas as sem-perfume e agressivas flores do ciúme?
Acaso ignoras que te amo tanto, todas as horas, já nem sei quanto?
Visto que em suma é todo teu, de mais nenhuma o peito meu?
Anjo sem fé nas minhas juras porque é que é que me angusturas?
Minh'alma chove frio e tristinho não te comove este versinho?
Carlos Drummond de Andrade
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Te amo
Te amo de uma maneira inexplicável de uma forma inconfessável de um modo contraditório
Te amo com meus estados de ânimo que são muitos e mudam de humor continuadamente pelo que você já sabe
o tempo a vida a morte
Te amo com o mundo que não entendo com a gente que não compreende com a ambivalência de minha alma com a incoerência dos meus atos com a fatalidade do destino com a conspiração do desejo com a ambiguidade dos fatos
Ainda quando digo que não te amo, te amo até quando te engano, não te engano no fundo levo a cabo um plano para amar-te melhor.
Te amo
sem refletir, inconscientemente irresponsavelmente, espontaneamente involuntariamente, por instinto por impulso, irracionalmente
De fato não tenho argumentos lógicos nem sequer improvisados para fundamentar este amor que sinto por ti que surgiu misteriosamente do nada
que não resolveu magicamente nada e que milagrosamente, pouco a pouco, com pouco e nada, tem melhorado o pior de mim.
Te amo
Te amo com um corpo que não pensa com um coração que não raciocina com uma cabeça que não coordena
Te amo incompreensivelmente sem perguntar-me porque te amo sem importar-me porque te amo sem questionar-me porque te amo
Te amo sinceramente porque te amo eu mesmo não sei porque te amo.
Pablo Neruda
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Ontem
As fendas nas quais cultivavas meus sorrisos eram ideogramas de leituras não feitas por minhas inconciliáveis palavras, margem de pus e suor em meu peito
Ainda
Do lado de lá circulavam manhãs quando eu tardia pioneira do nada abria a mochila de meus sentimentos e via voar sem um mínimo de pressa faíscas molestadas por minhas asas, plumas seduzidas em alinhamento idôneo, verão calvo de um sol desfeito
Mas
Nada tendo de nada que sei e do que sei tendo nada, apenas carreguei mãos abertas a benzer teus olhos com loucura meio a razão e a tentação
Agora
Dou-te sem medo do que não sei minhas horas vividas, vindouras. Faz tempo ... um dia eu serenei... Hoje orvalho sendas... Por zelo leva a faixa à vida. Prossigas!
Eliane Alcântara
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Poema de amor
Vasa-me os olhos e eu poderei ver-te Destrói-me os ouvidos e eu poderei ouvir-te Mesmo sem pés poderei chegar a ti Mesmo sem boca poderei conjurar-te Corta-me os braços adorar-te-ei Com os braços com as mãos No coração latejará o meu cérebro E se incendiares o meu cérebro Guardar-te-ei ainda no meu sangue
Rainer Maria Rilke
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A (mar)
... Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!"